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O prazer do jogo fora e a viagem para o Engenhão

O prazer do jogo fora e a viagem para o Engenhão

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Por: Gabriel Perecini (@perecenispfc01)

 

Um dia antes do histórico duelo contra o Botafogo, como um presságio, a Vivis, editora do site, me pediu para escrever sobre como é gostoso fazer uma viagem para assistir ao jogo do São Paulo como visitante.

Seria um texto normal, mas como a partida se transformou na melhor viagem que já fiz para ver um jogo, irei copiar os moldes do relato que fiz após a classificação heroica contra o Atlético-MG, nas quartas de final da Libertadores do ano passado (leia aqui).

Morumbi Tour de esquenta

Como dia 27, quinta-feira, era aniversário da Larissa e a curitibana estava por aqui para comemorar e ir aos jogos, decidimos sair de Santos e ir para São Paulo um dia antes do jogo, na sexta-feira, para pegar boas energias com um Morumbi Tour. Como precisaríamos dormir na capital de qualquer maneira, já que sairíamos 6h15, de carro, antecipamos apenas algumas horas. Bandana nos acolheu.

Saída (com atraso)

O carro estava lotado. Além de nós dois, outros três amigos: Vini, dono do carro e motorista, Hugo e Felipe. Na partida contra a Ponte Preta, em Campinas, também iríamos com o carro do Vini, mas o cidadão não acordou e eu, Hugo e Felipe precisamos ligar para outro amigo. No fim das contas, ele despertou com grande atraso e assistiu ao jogo no estádio com a gente. Sabendo disso, ficamos espertos. E, novamente, o rapaz dorme além da conta. Dessa vez, não tínhamos “reserva”. No fim, ele acordou com as nossas ligações e atrasou “apenas” uma hora. Ao invés de 6h15, saímos 7h15.

Tá tranquilo…

Já perto do Rio de Janeiro, e comigo mais calmo em relação ao horário, Felipe mandou mensagem para uma amiga que havia postado foto do ingresso, perguntando se estava tranquilo para trocar o voucher. Ela deu o sinal positivo e ficamos animados.

Tá, mesmo?

Uns 10 minutos depois, Hugo disse: “Meu amigo acabou de mandar mensagem. Disse que quase apanhou e que a torcida do Botafogo está fazendo ronda de moto”. Voltamos a ficar tensos, mesmo com o aviso que é habitual dessa pessoa exagerar nos fatos.

O Rio de Janeiro continua lindo

Assim que chegamos à capital carioca, nos deparamos com o exército espalhado pela cidade. Clima pesado. #CidadeMaravilhosa

“Só porque vocês são do Botafogo”

Dos cinco integrantes no carro, apenas um não havia imprimido o voucher: o motorista. Paramos em um espaço comercial com algumas lojas, a 2 km do estádio, e decidimos perguntar se alguém podia fazer a gentileza de emprestar a impressora. Passando pelas lojas, uma franquia de escola de idiomas. Felipe e Vini entraram e voltaram com o papel. Nessa volta, contaram a história: a atendente disse que só os ajudaria porque eles eram torcedores do Botafogo. Eles ficaram quietos, pegaram o papel e saíram.

A chegada e a troca

Quando chegamos ao Engenhão, por volta de 13h, paramos o carro na rua ao lado do setor visitante e fomos trocar os ingressos. Havia apenas um guichê funcionando e percebemos na prática a óbvia importância de chegar cedo. O clima estava muito mais para a amiga do Felipe que o amigo do Hugo: tranquilo. Já havia bom policiamento no local.

Os babacas estavam com o anjo da guarda em dia

Estava tudo na paz. Aí, uns 10 torcedores comuns do Botafogo passam em frente ao guichê do setor visitante e, do nada, puxam: “arerê, praia de paulista é o Rio Tietê”. Sim, se você tentou cantar, percebeu que não havia simetria. Além de terem passado só para encher o saco, são péssimos com músicas de arquibancadas. Quinze segundos depois da musiquinha, chegam seis ônibus com a Organizada do São Paulo. Os policiais foram correndo atrás desses botafoguenses para acelerar o passo deles e evitar confusão. Se ele tivessem demorado mais dois minutos não seria tão machões…

Almoço? Só lá dentro…

Com tudo garantido, cogitamos comer. Não existe nada no entorno do Engenhão (não do lado do visitante, pelo menos) e o Shopping ficava a 2,5 km. Não dava mais tempo. Decidimos arriscar para comer dentro do estádio, já sabendo que isso custaria um pouco mais. Lá dentro, mais opções do que o esperado: pizza, pastel e o escolhido Bob’s. Apesar do preço inflacionado, conseguimos comer bem.

Entrada e espera

Entramos assim que os portões abriram, às 14h. Sempre bom evitar tumulto na entrada e eventual perda do começo do jogo. O lado negativo é ficar um bom tempo sem muito que fazer até a bola rolar, mas é muito melhor que correr o risco de não entrar.

Gol? Gol!

Com a bola rolando, a torcida do São Paulo parecia mandante. Cantando bastante, apoiando e vendo uma atuação consciente do time. Mas no lance em que já tínhamos soltado um “ah” de lamentação, após a perda da bola do Cueva, saiu o gol na lambança do zagueiro. Grande comemoração e algumas caras de “sim, foi gol!”, tamanha a bobagem do defensor. Mal sabíamos que teríamos coisa muito maior e mais difícil de acreditar.

“Todo jogo…”

Após o empate, a reação de todos foi a mesma: não é possível que a gente não consiga ficar cinco minutos em vantagem! E lembranças da partida contra o Atlético-GO vieram à tona. A frase “todo jogo” foi dita umas 500 vezes.

“NÃO!”

Essa foi a minha reação no gol da virada. No intervalo, Hugo disse que sabia que havia sido uma grande falha do Renan justamente pela maneira como reagi. Mão na cabeça e grito desesperado de “não!”. Estávamos atrás do gol do Gatito no primeiro tempo, então a visão do outro lado não era clara para todos.

Intervalo, debate e novo membro na torcida

Com o fim da primeira etapa, lamentação pelo resultado e pelo contexto: time melhor e dois chutes do adversário. No comecinho do segundo tempo, Techima se juntou a nós ali na arquibancada. Outro amigo que foi ao jogo, mas sozinho.

Pênalti, palpite e tensão

No momento do pênalti, alguns vibraram bastante e outros ficaram imediatamente tensos. Vini não comemora pênalti marcado desde 2012, quando Jadson bateu ridiculamente a penalidade contra o Corinthians, no Pacaembu. Antes da cobrança, disse ao Techima: “Pelo contexto do jogo, se não fizer, o time morre psicologicamente e acaba aí”. Ele concordou. Que ingenuidade… Antes da batida, Vini ainda discutiu veementemente com uma menina que estava filmando a batida. Era tensão vs. tanto faz.

“Acabou”

Pênalti perdido, decepção e, para piorar, terceiro gol. Após o sentimento de luto e pouco depois da saída de bola, olhei para o Vini e disse: “Acabou”. Ele olhou, balançou a camisa positivamente, abriu os braços e disse: “Acabou”. Muita, muita ingenuidade.

Votação patética

Aqui, um dos momentos mais escrotos do jogo e de todas as viagens. O placar eletrônico anunciou pela terceira vez que a torcida visitante precisaria sair até os 40 minutos do segundo tempo ou esperar uma hora após o jogo. Aos 36′, Vini, motorista e dono do carro, soltou um “a maioria vence” e perguntou a todos se ficaríamos ou sairíamos. De imediato, disse que isso não existia e que tínhamos que ficar, independemente do resultado. Hugo, Felipe e Vini votaram por sair aos 40 minutos. Larissa sequer chegou a votar. Passamos dois minutos discutindo, de maneira breve e sem tanta intensidade, já que o jogo estava rolando. Quando estávamos na estrada de volta, comentamos mais um pouco, mas o debate, já bem-humorado, durou pouco porque os três sabiam que estavam errados.

Ah, gol. Ok.

O gol mudou a ideia dos três. Mas sem muita convicção. De todos nós ali, ninguém, literalmente ninguém, esboçou reação na hora do segundo gol. Pouquíssimos vibraram. Aliás, vejam os gols na SPFCtv, o canal oficial do clube no YouTube. Com o som ambiente, é possível reparar isso. Grito baixíssimo da torcida no segundo gol e uma explosão indescritível e enorme nos dois tentos seguintes.

O milagre e o Bolt

O terceiro gol, logo depois, levou todo mundo à loucura. Vi os gols em um canal de YouTube que pegou pedaços da transmissão do Premiere. Recomendo que vejam para ter ideia do que vou explicar. Há um espaço gigante atrás das cadeiras para deficientes, nos último lance da arquibancada, onde ficamos (já que não havia nenhum presente). No terceiro gol, uma correria enlouquecida tomou conta do espaço. Eu corri quase o setor inteiro, pulando, berrando, socando o vento e chacoalhando a camisa no corpo. Depois do jogo, o Vini comentou: “Depois do terceiro gol, virei para te abraçar e você estava lá no inferno, correndo. Parecia o Bolt! Só por que o cara correu aqui??”, se referindo aos Jogos Olímpicos de 2016. Sensacional.

“Eles já fizeram as três!”

Ficamos muito tempo comemorando e, quando voltamos, percebemos que o jogo estava estranhamento parado. Percebemos o atendimento ao Gatito. Soltei a frase acima e todos ficaram olhando atentamente para o campo, esperando a definição. Seria um homem a menos para o adversário e um jogador de linha no gol. Naquele tempo, e somente ali, acreditamos que a vitória poderia vir. Quando o goleiro se levantou, voltamos a focar no empate e em não tomar um gol imediatamente depois de fazer.

“Cinco? Filho da puta!”

Quando o quarto árbitro indicou os acréscimos, a reação geral foi de revolta, com a frase acima dita pelo Hugo. Tentei explicar que ele havia dado até pouco, sendo que só o atendimento deixou o jogo parado um bom tempo, mas tínhamos mais coisa para se preocupar.

O impossível, a incredulidade e a festa

Cada bola tirada da nossa defesa era uma vibração. O empate estava ótimo. Quando Cueva achou Marcos Guilherme e o estreante saiu na cara do gol, todos acompanharam o desfecho com a pupila: cada passo do camisa 23 e cada deslocamento da bola ia crescendo os olhos. Quando saiu o gol, uma insanidade que nunca vi igual. Parecia título. Cada um comemorava do seu jeito: correria, se jogando no chão, ajoelhando, chorando… mas uma coisa era comum em todos: as duas mãos na cabeça. Ninguém acreditava no que estava acontecendo. O semblante de êxtase com descrença era geral. Literalmente, foi indescritível. Uma emoção brutal.

Acabou!!!

Comemoração de título. Saímos de 18º para a 15º. Após seis rodadas, dormiríamos fora da zona de rebaixamento por pelo menos dois dias (e acabamos que terminamos a jornada fora dela!). Uma virada histórica, épica, impossível, inacreditável, mágica. Um merecido grito de “time de guerreiros” tomou conta do Engenhão depois de uns 10 minutos, quando todos voltaram a atenção para o campo novamente, após os festejos. Nunca faltou raça a essa equipe. E essa vitória é mais do que a prova disso, é a recompensa.

Uma hora de festa e um merecido desabafo no fim

Teríamos que aguardar uma hora a liberação. Problema nenhum! A festa tomou conta do setor visitante do Engenhão. Uma comemoração do tamanho da virada e da necessidade que o clube tinha daqueles pontos. Passou voando e de maneira muito, muito alegre. Quase na hora de deixar o estádio, ainda deu tempo de desabafar, via inbox, contra uma cidadã que, no intervalo, citou o meu tuíte com o ingresso do jogo e disse, ironicamente, para eu parar de ir aos jogos, insuando um azar. Ou seja, o time em uma fase desgraçada e eu ainda tendo que aturar gracinha de quem claramente estava bem pouco preocupado com o clube. Block e desabafo no auge do êxtase pós-jogo.

A volta

Poucas coisas são mais divertidas que a volta de um jogo fora de casa depois de uma vitória (ainda mais épica). Alegria, piada, descontração, inúmeras risadas e gargalhadas… Uma beleza! As seis horas passaram brincando.

Lanche com botafoguenses

Em Volta Redonda, paramos em um posto que tinha um Burger King. Decidimos comer mais alguns sanduíches, até para comemorar o milagre que tínhamos acabado de ver. No meio do lanche, cerca de dez botafoguenses entram e nos olham com cara de decepcionados. A comida deve ter ficado mais azeda para eles, quando viram cinco são-paulinos comendo ali, felizes. Não à toa, o salão era em “U” e eles ficaram no sentido oposto, onde sequer havia contato visual.

Time > Motorista

Faltando duas horas para chegarmos, coloquei no GPS para ver se conseguiríamos pegar o metrô aberto. Segundo o Google, perderíamos por 15 minutos. Disse ao Vini: “Vamos perder o metrô por 15 minutos, tira isso aí! O time reagiu de maneira impossível, quero ver você!”. Apesar das risadas, perdemos a transporte por 10 minutos e fomos de ônibus, saindo do Terminal Sacomã, para a casa do Bandana, que nos acolheu novamente.

Desmaio como há tempos não acontecia

Ao chegar, conversamos um pouco e ligamos a TV, procurando o VT da partida, mas ela tinha acabado de passar. Quando eu e a Larissa deitamos nos sofás da sala, eu, particularmente, estava com zero sono, ainda extremamente animado, mesmo após viagem e dormindo pouquíssimo há dois dias. Quando apoiei a cabeça, foi questão de segundos para o corpo desligar e dormir com um relaxamento que há tempos não vinha. Nada melhor que uma vitória épica e fundamental.

Para finalizar, um relato geral: jogo de visitante é um dos grandes prazeres que o futebol pode proporcionar. Claro que a viagem ser boa ou ruim depende demais do jogo (pelo menos para mim), mas é uma experiência deliciosa. O “perigo” envolvido em ser visitante é muito menor do que pintam. Basta você saber andar e deixar para ostentar o manto apenas no seu setor. Vivemos em um país perigoso e, infelizmente, o futebol não foge disso.

Os gastos, quando divididos com amigos ou após “plantões” em sites de companhias aéreas, principalmente em feirões, tornam a viagem viável (se pensarmos que existe um grande deslocamento a ser feito e um considerável período fora de casa). Se eu pudesse deixar um conselho aqui, seria que todos vivenciassem essa situação pelo menos uma vez. E isso vale tanto para quem ama o clube, quanto apenas simpatiza e prefere curtir os “extras” da viagem, como a conversa com amigos e uma experiência diferente.

Como recompensa, jogos épicos como o de sábado. Ir à casa do adversário, calar a torcida mandante, que passou o jogo inteiro enchendo o seu saco, e ganhar os três pontos (ou a classificação) para o seu time. Acreditem, é um sentimento inexplicável.

 

 

*Imagem: Arquivo Pessoal/Gabriel Perecini

Perecini São-paulino desde 1930, antes de nascer. Uma vida inteira dedicada a amar, incondicionalmente, o Clube da Fé. Nas prioridades da vida, primeiramente vem o Clube e, depois, o resto. Devoto Dele: Rogério Ceni. "Dentre os grandes, és o primeiro". Ídolos: Rogério Ceni, Raí e Telê.